31 agosto 2015

Amores partidos

Uma mulher escreveu para o meu programa de TV, na Rede Vida, falando sobre sua decisão de partir. Contou, com dignidade, sua história de amor e de recomeço. "Fiz tudo pelo meu namorado. Tudo. Vivi por ele. Cuidei dele. Imaginei um mundo lindo ao lado dele. Até a velhice. Mas acabou. A pedra que ele me atirou ainda dói. Mas sou decidida. Acabou, acabou!". Esse é um trecho de uma longa narrativa. 
 Lembrei-me da antiga canção, composta por Herivelto Martins e David Nasser, que diz "Atiraste uma pedra no peito de quem só te fez tanto bem". Pedras machucam. As reais e as imaginárias. Pedras causam perdas. Perdas nos tiram o que gostaríamos de ter. Pessoas. Momentos. Vida. Gosto de encontrar gente decidida. Mesmo na dor.

Histórias de amor chegam ao fim por várias circunstâncias. Morre-se um pouco quando morre a amada ou o amado. Despede-se do corpo sem vida que tanta vida trouxe. Vida que ganhou sabor, vida que reencontrou o significado por um amor. O luto é incomodativo. Entretanto, é definitivo. Cessam-se as possibilidades. E segue-se a vida. O tempo ajuda. A dor lancinante do amado que enterrou seu amor transforma-se em saudade, lembrança boa de tempos, de canções, de enternecimentos. Findam-se as histórias por outras razões, como a da mulher que me escreveu. O amado não foi capaz de respeitá-la, não soube valorizar os dias gastos, voluntariamente, em nome do amor. E atirou a pedra. E quebrou o telhado. E feriu, sem sobre isso antes refletir, quem não desperdiçou os momentos em atenção. Desatenção, teve ele. O tempo lhe ensinou alguma coisa. Tentou voltar. Manso. No lugar das pedras, as flores. Por que não as trouxe antes? Por que não romantizou os momentos enquanto estavam juntos? Por que brincou de conquistador compulsivo, necessitado de informar aos outros os feitos heroicos de macho? 
 E ela, no início, não acreditou. Esperou confirmação. Sofreu as notícias ditas por estranhos. Sim. Porque o íntimo era ele. O que recebia o seu devotado amor. Pensou ela em segui-lo. Não o fez. Teve dignidade. Por outros caminhos, reconheceu suas mentiras. É uma mulher, diz o texto, cultora da verdade. Vê a mentira como o lodo imundo da humanidade. Aprendeu a ser verdade. Decidiu seguir a aprendizagem. E isso lhe deu seguranças para decidir partir. Mesmo que partida. Mesmo que o amor não tenha dito a ele quanto tempo ainda há de permanecer remoendo seus sentidos. Não deixamos de pensar em alguém quando decidimos. Paciência. Não é a primeira nem será a última pessoa a sofrer de amor. Um dia, ela há de abrir as janelas, respirar fundo, e perceber que os incômodos da paixão indevida se foram. E aí a vida recomeça.
E é assim com todo mundo. Melhor isso do que não amar. Melhor a dor de uma paixão não correspondida ou a ferida de um amor que se foi do que a triste constatação de que as portas para o amor foram trancadas desde sempre. E a chave não está disponível para abri-la.
Vinicius de Moraes, o poeta que amou por decisão de vida, crê em uma eternidade no tempo do amor:

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

(Soneto da Fidelidade)

A mulher que me escreveu inspirou-se nesse texto. Amanhã, ela estará melhor, certamente. E um outro amor haverá de fazer sua morada em uma casa já limpa, preparada para receber.


Atiraste uma pedra
No peito de quem
Só te fez tanto bem
E quebraste um telhado
Perdeste um abrigo
Feriste um amigo

Por: Gabriel Chalita (fonte: Diário de S. Paulo) | Data: 30/08/2015

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